Do Twitter à comunicação em múltiplas camadas: caminho para uma inteligência global

2009/06/04 — 2 Comentários

Acabo de me queimar tomando café.” – 32 caracteres

Estou preso no trânsito, certamente vou chegar atrasado hoje!” – 61 caracteres

Não acredito! Está faltando luz e fiquei preso dentro do elevador! Só faltava essa para completar meu dia.” – 106 caracteres

De quantos caracteres precisamos para mandar uma mensagem coerente para alguém? E para várias pessoas? E para ninguém em especial? Para Evan Williams, criador do Twitter, 140 é um número suficiente.

Com exceção de alguns poucos eremitas tecnológicos vivendo em ilhas desprovidas de qualquer forma de comunicação com o resto do mundo, todos já ouviram falar do Twitter. Descrevê-lo não é complicado: trata-se de uma ferramenta de micro-blogging, um local onde qualquer um pode escrever curtas mensagens de texto com até 140 caracteres para um grupo de seguidores. Até aí, tudo bem, o problema aparece quando tentamos responder a uma simples pergunta: para que serve isso? A resposta não é tão simples quanto poderia parecer (sei que muitos responderiam “para nada, é só um modismo, uma futilidade”). Vamos liberar nossas mentes para uma viagem filosófica e tentar vislumbrar o que ferramentas como o Twitter podem representar para o nosso futuro.

Muitas vezes  pergunto aos meus alunos como eles definem “inteligência artificial”. Gosto de trazer assuntos como esse para a sala de aula pois em geral geram discussões acaloradas sobre o desenvolvimento da tecnologia sob olhares técnicos, éticos, sociais e até culturais. Mas o que é realmente interessante nesse tipo de discussão é que, na maior parte das vezes, meus alunos definem a inteligência artificial como algo puramente eletrônico.

Não é estranho entender de onde vem essa linha de raciocínio, afinal estamos sob a constante influência da mídia que sempre olha para o assunto do ponto de vista da máquina. Filmes como Exterminador do Futuro e Matrix são bem claros: um dia o poder de processamento dos computadores os tornará conscientes e, a partir desse momento, transformarão-se em entidades autônomas, livres do controle dos humanos. É nesse ponto das histórias que as máquinas se rebelam contra nós e viram assassinas psicóticas com o único objetivo de aniquilar a raça humana. Fico imaginando o que os robôs humanóides da série Exterminador farão quando os humanos forem extintos. Passarão a usar terno de segunda a sexta e assumirão uma vida pacata, com direito a um cineminha nos finais de semana?

Esse é um cenário possível, mas extremamente improvável. Em seu artigo The Coming of the Singularity, o professor Vernor Vinge, do Departamente de Ciências Matemáticas da San Diego State University, analisa este e outros cenários que levam ao desenvolvimento de uma inteligência artificial capaz de se atualizar em um ritmo cada vez mais acelerado, ultrapassando o limite da própria compreensão humana em um momento que ele define como “Singularidade“.

Em seu artigo, Vinge vislumbra quatro possibilidade de chegarmos a uma inteligência sobrehumana:

  • Computadores chegarão a um estágio de desenvolvimento onde se tornarão conscientes e, através de seu “intelecto” avançado, assumirão a tarefa de projetar seus sucessores.
  • Redes de computadores e seus usuários, juntos, serão os componentes de uma nova “entidade inteligente”.
  • As interfaces entre os humanos e os computadores serão cada vez mais naturais, até chegarmos ao ponto onde elas se tornarão intimamente transparentes e a inteligência dessa simbiose poderá ser considerada sobrehumana.
  • Através do desenvolvimento de pesquisas biológicas, a humanidade será capaz de aumentar o desempenho do cérebro, levando nossa capacidade intelectual a um novo patamar evolutivo.

Se considerarmos que três das quatro possibilidades possuem tanto componentes artificiais quanto naturais na composição da inteligência, podemos concluir que que a inteligência artificial não é algo necessariamente isolado da humanidade. Na verdade, apenas o primeiro item da lista descreve um cenário onde o ser humano torna-se desnecessário (o que justifica o seu uso por praticamente todo roteirista de filmes de ficção catastróficos).

Mas vamos considerar apenas os dois itens no meio dessa lista. O quanto falta para chegarmos a um novo tipo de inteligência baseada não apenas no poder intelectual do indivíduo, nem na capacidade computacional das máquinas, mas no conjunto de todos esses elementos? Estamos distantes de uma era onde os computadores estarão sempre conosco, nos permitindo uma conexão constante com o resto dessa coletividade intelectual? O que certamente não passava de um interessante material para um conto fictício é, hoje, uma realidade.

Por ser uma mudança gradual na forma de pensarmos coletivamente, corremos o risco de não percebermos a profundidade das mudanças que estão em andamento. Assim como ocorre em qualquer processo transitório, só entenderemos sua importância quando passarmos por ele e formos capazes de analisá-lo de longe. Mas se prestarmos atenção, somos capazes de observar sinais de que algo importante está acontecendo. É onde o Twitter (e outros serviços similares) embarcam nesta viagem.

Em um artigo publicado hoje no site da revista Time, Steven Johnson (autor do clássico Cultura da Interface) afirma que “a única coisa certa que você dizer sobre o Twitter é que ele causa uma péssima primeira impressão” (How Twitter Will Change the World). Durante seu texto, Johnson explica como ele passou de cético a usuário do serviço após participar da conferência Hacking Education, onde os participantes trocavam informações através do Twitter ao mesmo tempo em que as conversas ocorriam ao vivo. Na parede, mensagens eram projetadas em tempo real, o que gerava, segundo Johnson, “uma conversação sombra” com resumos dos principais argumentos, piadas ocasionais e links interessantes. Em pouco tempo, usuários de fora começaram a se juntar às discussões, levando novas informações. Johnson explica como esse foi um processo interessante ao permitir que os participantes presentes extraíssem tópicos e questões realmente pertinentes e as agregassem às suas conversas.

Este pequeno exemplo demonstra como uma ferramenta simples como o Twitter pode ter um impacto profundo no modo como nos comunicamos, influenciando também a nossa maneira de pensar. Nossas mentes não estão mais isoladas e, graças a esse contato constante com outras pessoas, podemos aumentar consideravelmente o nosso poder intelectual.

Encontramos pela web diversos outros exemplos de uso produtivo do Twitter e similares. Basta seguir as mensagens de um jornalista para perceber como o serviço pode influenciar de forma positiva todas as atividades que dependem do fluxo de informação. Imaginem a seguinte situação: um repórter foi selecionado na última hora para participar de uma conferência de imprensa de um determinado político. Devido à estrutura do evento, ele é informado que poderá fazer uma única pergunta. Se ele estivesse completamente isolado, dependeria exclusivamente de sua capacidade mental para formular a pergunta. Conectado, ele pode enviar pequenas mensagens descrevendo o que ele está vendo e ouvindo, pode pedir a opinião de seus seguidores, pode até solicitar uma rápida pesquisa àqueles que estão sentados em frente ao computador acompanhando o que está acontecendo. É como se a capacidade intelectual do repórter fosse multiplicada pelo seu número de seguidores. Ele ainda depende de sua experiência e de seus conhecimentos, mas agora conta com “neurônios adicionais” que podem ajudá-lo a levantar novas informações rapidamente, algo que pode levá-lo a formular uma pergunta que nunca faria normalmente.

Processos como esse são cada vez mais usados como fonte para um pensamento coletivo. Alguns professores começam a usar essas ferramentas em sala de aula, sugerindo que seus alunos levem as discussões diretamente para a rede no momento em que elas estão acontecendo. Alunos trocam opiniões entre si e com participantes externos, o que enriquece a conversa ao trazer para a mesa uma gama de novos pontos de vista.

O Twitter é só um primeiro passo, uma experiência curiosa com um grande potencial para o futuro. Por enquanto, é difícil prever como essa forma de interação influenciará toda uma sociedade, mas o que é claro é que muitos pesquisadores têm levado o assunto muito a sério. Sites e empresas como Facebook e Yahoo estão entrando na onda do micro-blogging rapidamente e o próprio Google está levando a idéia a um novo patamar bastante ambicioso com seu projeto Google Wave.

No momento, tudo ainda é bastante confuso. Todo esse “aumento da capacidade intelectual” tem seu lado positivo, mas também nos traz uma quantidade de informação muito grande em um ritmo muito pequeno. Para conseguirmos gerenciar isso com eficiência, precisamos de tempo para nos acostumar com essa forma colaborativa de pensar. Estamos começando a aprender a nos comunicar em múltiplas camadas simultâneas, com várias pessoas e sistemas ao mesmo tempo. Esse aprendizado não é um processo fácil e podemos estar exigindo muito de nossas mentes. Mas nunca estivemos tão perto de uma verdadeira inteligência artificial global, onde humanos e seus dispositivos computacionais (de computadores a telefones celulares) formam uma rede integrada com uma capacidade enorme de gerar conhecimento.

Só não podemos permitir que esse intelecto global engula a nossa individualidade…

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2 Respostas para Do Twitter à comunicação em múltiplas camadas: caminho para uma inteligência global

  1. 
    Mariana Matos 2009/06/04 às 19:46

    Ótimo artigo!! Acho que esse “pensar colaborativo”, cada vez mais presente nas nossas rotinas, tende a se tornar algo comum a todos.

    Só discordo que “todos” saibam o que é o Twitter. Os não-aficcionados-por-tecnologia não sabem. E são muitos. Posso dizer que numa mesa de bar eu costumo ser a única que sabe. E o povo NÃO entende de cara, assim que eu explico (tá, o problema pode ser minha explicação 🙂 ).

  2. 

    Professor! Como é que eu explico o Twitter pro meu pai – que de “sem fio” só tem o radinho de pilha?
    Conhecidos dele já o abordaram dizendo “estou seguindo sua filha no Twitter” e quase que ele puxou um 38…
    🙂 🙂 🙂

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